ALÉM DO BURNOUT: O ADOECIMENTO CRÔNICO INVISÍVEL ENTRE PROFESSORES DA EDUCAÇÃO BÁSICA PÚBLICA BRASILEIRA: UMA REVISÃO DE ESCOPO
Resumo:
Contexto: As doenças crônicas não transmissíveis (DCNT) respondem por mais da metade da mortalidade prematura no Brasil e por custo estimado de R$ 3,45 bilhões ao SUS apenas em 2018. Professores da educação básica pública — categoria com mais de 2 milhões de trabalhadores, majoritariamente feminina e com crescente precarização das condições ocupacionais — constituem um grupo de risco subinvestigado para DCNT. A produção científica sobre saúde docente no Brasil está centrada em burnout e saúde mental; o adoecimento físico crônico permanece nos bastidores, sem sistematização disponível. Objetivo: Mapear a extensão, natureza e distribuição das evidências científicas sobre prevalência, incidência, fatores de risco e determinantes das DCNT em professores da educação básica pública brasileira, articulando condições de trabalho, gênero, raça/cor e literacia em saúde como variáveis explicativas. Método: Revisão de escopo conduzida segundo metodologia JBI e relatada conforme PRISMA-ScR. A busca abrangeu LILACS, MEDLINE via PubMed, SciELO, BDENF, RBSO (Fundacentro/SciELO), Epidemiologia & Serviços de Saúde, Scopus e Web of Science, sem restrição de data (limite junho de 2026), em português, inglês e espanhol. A questão foi estruturada pelo mnemônico PCC com foco em professores da educação básica pública brasileira como população e DCNT como conceito central. Resultados: Foram incluídos 29 estudos, publicados entre 2006 e 2026, com concentração em quatro estados (MG, PR, BA, SC) e predominância de delineamentos transversais (75,9%). Os achados centrais revelam: prevalência de hipertensão arterial entre professores públicos de 24,9% (Vieira et al., 2020, CSC/SciELO); excesso de peso em 53–58% das amostras; prevalência de sobrepeso/obesidade de 53,5% (Santos et al., 2022/RBONE); atividade física insuficiente em mais de metade dos docentes; e expressiva articulação entre insatisfação no trabalho e comportamentos de risco para DCNT (RBSO, 2023). A diferenciação por gênero é consistente: homens apresentam maiores prevalências de fatores de risco comportamentais (tabagismo, alcoolismo, sedentarismo); mulheres, maiores prevalências de burnout, sintomas depressivos e uso de serviços de saúde. Raça/cor é raramente investigada como variável, mas os dados disponíveis indicam maior vulnerabilidade de pretos e pardos. Condições de trabalho — sobrecarga de jornada, multiemprego, insatisfação laboral — emergem como determinantes estruturais das DCNT, mediados por comportamentos de risco. Conclusão: A produção disponível é regionalmente concentrada, metodologicamente homogênea e insuficiente para embasar políticas nacionais de saúde do trabalhador docente. Não existe nenhum estudo nacional de coorte sobre DCNT em professores públicos brasileiros. A categoria tem perfil epidemiológico de risco para DCNT documentado e relevante, com determinantes ocupacionais específicos que a distinguem de outras populações trabalhadoras — o que justifica abordagem investigativa e de política pública diferenciada.
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